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Expoente na produção de mesa, Raphael Juliano, “criador” da Lima Sorocaba, reencontra o passado e reverencia a citricultura

“Minha esposa, minhas duas filhas, minhas quatro netas, meus três bisnetos e minha bisneta, muitas amizades e os 600 funcionários, que eu considero 600 amigos. Esses são os melhores frutos que colhi”, resume aos 83 anos o mercador e citricultor Raphael Juliano. “Devo à laranja tudo que conquistei”, diz.

Descendente de italianos – os pais vieram ainda crianças de Bari, no calcanhar da bota, na costa do Mar Adriático –, Juliano começou a aprender a arte da negociação muito novo, com seu pai, Domingos, que vendia peixe. Compravam de madrugada no Mercado Municipal de São Paulo e iam de carroça até a região da Penha para vender.

Aos sete anos, para ajudar nas despesas de casa, começou a trabalhar com o avô, Paschoal, em uma barraca de frutas no Mercadão. Era início da década de 1940, tempo em que se comprava laranja em Nova Odessa (SP) e na Baixada Fluminense (RJ) com as frutas ainda nos pés. “A laranja vinha de trem”, conta. As caixas desembarcavam no Pari e de lá eram transportadas para o Mercadão.

“O mercado era o lugar onde mais se aprendia a comercializar. Você negociava com árabe, italiano, português, japonês, turco, espanhol, toda essa gente que veio para vencer, cada um com uma história”, diz.

Na adolescência, trabalhou com seu tio José de Lúcia, o tio Pepo, como era conhecido no Mercadão. Pepo era contemporâneo, concorrente e amigo de José Cutrale. Juliano aprendeu com os dois que a expansão poderia incrementar os dividendos. Pepo comprou duas fazendas no Vale do Paraíba. Juliano registrou o movimento, que repetiria mais adiante.

Buon viaggio

Juliano ia construindo a decisão de trilhar o próprio caminho. Sem dinheiro, comprou duas barracas no Mercadão. “Meu amigo Mário Avena me disse para eu pagar quando conseguisse”, lembra. Com o tempo, chegou a ter seis barracas.

Em 1961, Juliano adquiriu sua primeira propriedade, nas imediações de Porto Feliz (SP). “Doze alqueires”, demarca. “Um pomar velho, de laranja Bahia”, descreve. Seguindo o conselho do avô, não erradicou a plantação antiga. Em vez de eliminá-la, fez a poda. Desse pomar, colheu nos anos seguintes laranja suficiente para adquirir a propriedade lindeira, de 25 alqueires, que despertou sua atenção por causa da nascente.

Juliano nutre carinho especial por cavalos. Sempre que podia, estava no Jockey Club de São Paulo. “Em 1966, eu tinha 27 cavalos de corrida”, comenta. Ele conta também que quando um dos seus cavalos cruzou a linha em primeiro e venceu o Grande Prêmio Prefeito de São Paulo, estava a caminho do Jockey. Não viu a chegada triunfante. No trabalho desde as quatro da manhã, lembra-se da roupa surrada e da barba por fazer em meio à finesse da elite paulistana. Acabou anunciado como “o representante do dono do cavalo”, recorda, rindo. “Passei minha vida trabalhando”, afirma.

E por que também as coincidências regem parte das epopeias, numa dessas idas ao Jockey, bateu-lhe às costas o herdeiro da fazenda vizinha, de 125 alqueires, da Companhia Nacional de Estamparia, com quem Juliano tentava contato, sempre barrado por advogados que intermediavam as conversas. “Cheguei a ficar um dia inteiro no portão da Estamparia, e nada”, reclama.

Nesse dia, a sorte estava a seu favor. Severino Pereira da Silva, dono da Estamparia, havia sido homenageado no Jockey como o industrial do ano. Seu filho abriu o portão da empresa. E Juliano finalmente adquiriu a Fazenda Ana Maria, até hoje sua principal propriedade.

Em 1965, com a fazenda em plena produção, inaugurou seu primeiro packing house, entre os bairros do Brás e Belém, na capital paulista. Em 1969, Juliano comprou seu primeiro boxe para comercialização de citros na então recém inaugurada Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp).

Nesse mesmo ano, começou a construção de seu novo packing house, também em São Paulo, próximo ao Ceagesp, no bairro do Jaguaré. No início dos anos 1970, com a chegada de energia elétrica à Fazenda Ana Maria, o packing house, que hoje conta com cinco máquinas espanholas para o beneficiamento de laranjas, foi transferido para o Interior. De lá, Juliano passou a controlar toda a sua cadeia produtiva, do plantio à comercialização.

Un sogno

Admirador de José Cutrale, Carl Fisher e Edmond Van Parys, nomes expressivos da citricultura a quem atribui pioneirismo, empreendedorismo e ousadia, Juliano tem hoje seis propriedades e cinco boxes na Ceagesp. É o “pai” da variedade Lima Sorocaba. “Identifiquei três pés no pomar que davam frutos maiores e mais bonitos. Fiz a seleção”, explica.

O menino que, com o pai, gritava “sardinha” para a freguesia da Penha, e que aprendeu a dar valor à laranja com avô, o adolescente que vendia mexerica Cravo e Rio com Tio Pepo, o moço que cresceu vendendo melancia – “eu fui aclamado o rei da melancia” –, abacaxi e laranja Lima com folhinha – “para estender a perenidade da fruta” –, hoje cultiva laranjas Bahia, Pera Rio, Natal e Valência, tangerinas Murcote, Ponkan, Olé e Lee – “de casca avermelhada” – e limas da Pérsia, Verde e Sorocaba.

E como guarda árvores o pomareiro, e como guarda sementes a fruta, também Juliano guarda um sonho: formar uma fazenda de limão siciliano. Talvez seja o faro do negociante que fez fortuna guiado pela intuição. Talvez, um compromisso de gratidão com seus ancestrais, perfume cítrico que o vento traz das montanhas da Sicília. Não saberemos. Os grandes comerciantes não revelam os seus segredos.