Graduado pela Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz (Esalq/USP) em 1961, onde concluiu o doutorado em 1973, Antonio Ambrosio Amaro nasceu em uma família de produtores de frutas. Seu pai tinha 32 mil pés de uva e 10 mil pés de figo em Valinhos (SP) e 27 mil pés de laranja e 5 mil pés de maracujá em Araraquara (SP).

Amaro dedicou sua vida profissional ao estudo, defesa e desenvolvimento da fruticultura paulista, com inclinação especial por citros. Chegou em 1962 ao Instituto de Economia Agrícola (IEA), “atendendo ao convite do Dr. Joaquim Fonseca Lima, grande especialista em citricultura da época”, recorda Amaro. Foi diretor-geral do IEA em duas oportunidades, de 1994 a 1996 e de 2005 a 2007. Profissional da área de economia frutícola, trabalhou ativamente pela formação do Fundecitrus.
Segundo ele, o contato com produtores e comerciantes desde a infância – sua família tinha uma banca no antigo Mercado da Cantareira e um packing house, ambos na capital – e o relacionamento com a indústria devido ao trabalho no IEA favoreceram sua articulação em torno da criação do Fundecitrus, num momento delicado, em que o cancro cítrico se espalhava pelo estado de São Paulo.

Amaro foi conselheiro do Fundecitrus por 28 anos, representando a Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) do Estado de São Paulo.

“Mesmo quando eu era suplente, sem direito a voto, participava com análises e sugestões. Participei desde as primeiras reuniões, na [Rua] Libero Badaró [no Centro da cidade de São Paulo]”, relata. A sede do Fundecitrus foi para Araraquara em 1985.

Com os levantamentos realizados desde 1974 sobre o controle do cancro cítrico em diversos países e o documento que oficializava a constituição do Fundecitrus nas mãos, Amaro recebeu a equipe do Fundecitrus. Confira alguns trechos da entrevista:

Como era a citricultura paulista em 1977?

Era uma citricultura em plena expansão.
Depois da Suconasa, em 1963, comprada pela Cutrale em 1965, é formada a Citrosuco. Algumas outras pequenas fábricas, de grupos privados, também se instalaram nessa época.

Houve um interesse muito grande no plantio de laranja, que estava espalhada em toda a zona citrícola de exportação, na margem direita do rio Tietê. Mas, ao sul do rio, desde 1957, já havia surgido o cancro cítrico.

O primeiro foco foi em Presidente Prudente [no oeste de São Paulo], e a doença começou a se alastrar rapidamente por meio de mudas que eram vendidas por ambulantes na região. Então, os focos de cancro cítrico tinham de ser erradicados com a maior brevidade, como constava no Código Federal de Defesa Sanitária Vegetal.

Essa foi a primeira fase de combate ao cancro cítrico, chamada de emergencial. A partir daí, na Esalq, começaram as pesquisas para controle da doença lideradas por Artur Ferreira Cintra, Victoria Rosseti, Celso Ferraz de Oliveira Santos e Takao Namekata.

Como foi o apoio ao citricultor?

Já havia sido criado um cordão de isolamento, com barreiras na passagem dos rios do Peixe, Tietê e Paranapanema.

Não podia passar, era tudo fiscalizado. A fruta não podia mais sair. A Secretaria elaborou um trabalho de incentivo à fruticultura na região interditada, um trabalho magnífico de autoria de Inglês de Souza, Orlando Regitano e Heitor Montenegro, três das maiores autoridades em fruticultura em São Paulo.

Como o Código Federal de Defesa Sanitária Vegetal não permitia a indenização de culturas perenes, para oferecer uma alternativa aos produtores, a Secretaria dava oportunidades por meio da doação de mudas e concessão de créditos para outras frutícolas com mercado em crescimento.

A partir de 1977 a iniciativa privada se soma ao controle.

Isso. De 1957 a 1977, tivemos quatro fases: a inicial, chamada de emergencial; o momento de escassez de recursos; a criação da CANECC [Campanha Nacional de Erradicação de Cancro Cítrico], com o aporte de recursos federais; até o ponto em que os recursos eram insuficientes para conter a doença. Nós [governos de São Paulo e Federal] já vínhamos conversando em anos anteriores, em 1974 e 1975, e começamos a analisar o que era feito no mundo, na Flórida [Estados Unidos], Espanha, África do Sul, que na época era um dos melhores [produtores], Argentina, Itália, Marrocos e Israel. Ficou muitíssimo claro que havia a necessidade da contribuição de ambas as partes, tanto da indústria quanto dos citricultores.

O senhor participou dessa aproximação entre o setor público e o privado que culminou com a criação do Fundecitrus. Qual foi o seu papel?

O trânsito que eu tinha junto à iniciativa privada me permitiu ser um dos colaboradores, visitando os atacadistas e participando de reuniões com citricultores e industriais, mostrando que o único caminho viável era obter recursos para montar um fundo de defesa da citricultura paulista. Eu era do IEA, o Artur Ferreira Cintra e o Celso Santos eram do Instituto Biológico, que passa a representar a Secretaria na CANECC.

Até então não havia sido criada a CDA [Coordenadoria de Defesa Agropecuária]. Nós três, juntos, redigimos um protocolo de intensões e, depois, a primeira versão do estatuto, até chegar à assinatura do contrato. O secretário convidou a Associtrus, fundada em 1974 para representar os citricultores, e as sete indústrias, que assinaram o contrato e criaram o Fundecitrus no Diário Oficial de 16 de setembro de 1977.

Quais, na sua avaliação, são os grandes acertos do Fundecitrus?

Se não fosse o apoio do Fundecitrus, a citricultura paulista não teria chegado onde chegou. Mas eu vou dizer uma coisa que registrei nos 28 anos em que fui conselheiro. O sucesso do Fundecitrus só foi possível porque a arrecadação financeira das parcelas dos produtores ficou, desde o início, por conta de cada indústria, que, juntamente com sua participação, repassava ao Fundecitrus os valores ajustados pelo Conselho. E também porque na mesa do Conselho nunca se discutiu o preço da laranja, jamais houve negociação. O objetivo de defender a citricultura sempre foi preservado.

 

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